De tão veloz que a vida acelera seus dias, não nos damos conta do abandono de nós por nós mesmos. E em várias esquinas, diariamente nos esquecemos, e de tão largados que ali ficamos, não percebemos quando refutamos o amor – a dois – que, platônico, transcende-se de nós.

Entretanto, há o que desacelere os dias se houver em cada hora do dia uma hora de amor ou o amor todos os dias. Se o amor houver, nos resgatamos de nós e o amor não será mais platônico e, ao abandono, acenamos um adeus! Mas, não é tão simples, assim.

De tão ligeiro que o dia apressa suas horas, nem percebemos que a solidão se torna diária, que se ausenta sem sequer perceber que maltrata e, por isso, também, é maltratada. De tanto querer ser percebida, não é capaz de inferir que, por ferir, é isolada e, por isso, é esquecida num canto, desolada.

Contudo, se dispusermos mais horas do dia, provavelmente sobrará mais tempo para dizermos “eu te amo” mais vezes ao dia. E com isso, os abraços terão mais tempo no tempo de abraço sobrando mais tempo para tudo, para que diante de tudo a emoção se encante e a solidão se afaste.

E se por acaso houver falta de tempo do tempo, poderemos voltar ao primeiro segundo da hora e recomeçarmos do “eu te amo” acariciado por um novo abraço, pelo aconchego das palavras carregadas de amor, porque soletradas, serão mais encantadas.

Mas, os dias se atropelam tão velozmente que nos retiram do tempo, dissolvendo do coração a magia das horas vividas, porque com pressa, se renunciam. Não há magia que perdure no tempo sem o desejarmos feliz, porque os dias felizes se vão para nunca mais!

E é aí que nos assustamos porque o coração acelera arrependido por não ter dito “hoje eu te amo mais que ontem”, ou pelo abraço que poderia ter sido mais apertado, ou pela desculpa esfarrapada dada ao tempo da falta de tempo para compartilhar o afeto.

E então, nos abandonamos de novo porque nos largamos num canto, recatados, reprimidos. Aquele sonho de desejar ser feliz a dois passa a ser platônico, porque só um se despe de verdades; o outro, em suas mentiras se esconde.

A esperança de amar e ser amado também é platônica: um, a espera; o outro, por ela, se desespera. Um, a distância, ama; o outro, distante, por ele sofre. Ambos são platônicos, porque privados pela solidão, deixam-se viver do abandono de um pelo outro.

De tão céleres que são os nossos dias, não percebemos que nos roubamos sem, em troca, nos oferecermos companhia!

Por: Rosana Horta

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Rosana Horta
Mestre em Educação, professora por profissão, consultora pedagógica por admiração e respeito à docência e amante da palavra encantada.