A sociedade atual baseia seu planejamento no amanhã.

A certeza de que futuro existirá é tamanha que faz de alguns escravos de uma agenda fictícia.

Planeja-se, minuciosamente, tudo: de compras a longo prazo à encontros sociais.

Só há um detalhe esquecido nesse espaço de tempo: o amanhã não existe!

Clarice Lispector, em ‘Um Sopro de Vida’, escreveu sobre o tempo de forma tão objetiva e tão sábia que leva o leitor a refletir sobre sua própria existência: “O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta.

Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio.

Degusto assim cada detestável minuto.

E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie.

Quero viver muitos minutos num só minuto.

Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a ideia de imobilidade eterna.

Na eternidade não existe o tempo.

Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide.

De agora em diante o tempo vai ser sempre atual.

Hoje é hoje.

Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado.

E amanhã eu vou ter de novo um hoje.

Há algo de dor e pungência em viver o hoje.

O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente.

Mas há o hábito e o hábito anestesia.”

A vida é tão frágil e rápida quanto um piscar de olhos e admitir que o “ser” é mais importante do que o “ter” é essencial.

Hoje é o dia de admitir a falta de alguém, de admitir que a companhia vale mais que a solidão, de abrir mão da saudade, de aceitar os erros dos outros, de amar, de esquecer, de virar a página, de encerrar a história.

Hoje é o dia de perdoar a pessoa que te apunhalou pelas costas, mesmo que isso te custe mais dor.

Acredite hoje é o dia! Até porque, meu caro, você só tem ele!

Mário Quintana tem uma definição perfeita disso.

Em “Seiscentos e Sessenta e Seis” (Poesia Completa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 2000), o poeta retrata o tempo como efêmero: “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado… Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

É necessário parar de viver e de sofrer pelo futuro.

É preciso colocar os pés no chão e entender que o que se tem em mãos, é o agora e o bem que se fez ao próximo…e só isso! E, como diz Oscar Wilde: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”

Por: Pamela Camocardi @ Entrelinhas Literárias

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Pamela Camocardi
A literatura vista por vários ângulos e apresentada de forma bem diferente.